Um dia no parque
Sai de casa no último sábado. Meio sem rumo, quis aproveitar o dia de sol e tempo claro para uns cliques. Para quem sabe, conseguir cenas interessantes para o meu próximo livro. Peguei o carro e meio sem rumo, ele foi quase sozinho para o Jardim Botânico de São Paulo. Recomendo a quem não conhece. Lugar fantástico, calmo, relativamente seguro, bonito e ainda tem um plus interessante. Dentro de sua área encontramos uma das nascentes do riacho Ipiranga que tem tanto valor histórico aqui no nosso país.
Eu caminhei pelo parque e vi gente sorrindo por ele. Vi gente feliz. Alegres por estarem em contato com uma natureza que normalmente foge da gente. Raramente se consegue tirar os sapatos e caminhar pela grana, rolar na grama ou simplesmente deitar no gramado enquanto o dia passa preguiçoso. Era isso o que eu queria ver. Não queria fotografar pessoas, quem já viu minhas fotos em www.alexmartins.com.br sabe que eu raramente faço isso. Gosto mais de clicar as flores, as aves, as texturas, formas e cores que encontro na natureza.
Entretanto as pessoas ali me chamaram a atenção. Pessoas sozinhas, acompanhadas, famílias, grupos de amigos. Gente de toda forma, toda cor, todo jeito. Vestidos de todas as maneiras possíveis e sempre alegres e felizes, cada um curtindo o seu dia de sol da melhor maneira que encontrou.
Eu fui e fiz minhas fotos. Caminhei na grama, sentei na lanchonete comi enquanto via as pessoas. Vi crianças correndo, via adultos correndo, vi gente simplesmente feliz por ter um mínimo contato com a natureza. É estranho imaginar como a gente muitas vezes busca justamente aquilo que destrói. Assim, os parques acabam virando refúgios.Um raro local onde as crianças de apartamento (infelizmente a maioria hoje) conseguem ter o mínimo de contato com uma realidade que deveria ser mais constante.
A grande maioria das crianças da minha faixa etária, quanto tinha lá seus 10 ou 12 anos já tinha visto vários tipos de formiga, tinha visto sapo, sabia até reconhecer um ou outro canto de passarinho. Conhecia ao menos uma árvore frutífera (e já tinha roubado frutas dessa árvore em algum vizinho) e até reconhecia uma ou outra planta como avenca ou samambaia. Hoje, pelo que vejo em meus alunos, isso não acontece. É extremamente alto o número de crianças que vejo com medo de gatos e cachorros, animais totalmente domésticos. Crianças que nunca se perguntaram de onde vem o alimento que comem, talvez nem saibam que a carne que consomem vem de uma vaca (aliás, já ouvi de vários alunos o seu total desconhecimento de como realmente é uma vaca).
Isso me traz duas histórias engraçadas, ou pelo menos uma engraçada e outra mais reflexiva. Anos atrás, dando aulas para alunos da sexta série (hoje sétimo ano) uma aluna teimou comigo que pingüim tinha pelos e não penas. Por mais que eu levasse fotos, livros, anotações, nada surtia efeito. Até que um dia, numa excursão ao zoológico, ela viu o animal e se convenceu, quando observou que o pingüim fazia na água o mesmo movimento que os passarinhos que ela via voando através da janela de sua casa. Foi uma descoberta, só possível porque ela já tinha visto animais voando, foi uma descoberta dela que até hoje (vários anos depois) rende risadas quando falo com a ex-aluna.
Nesse mundo de pressa, pouco contato e muita internet, experimentações assim se tornam mais difíceis. Não são coisas que devam ficar a cargo da escola, mas vivências que a criança deve ver por ela mesma. Ela deve tentar subir numa árvore, deve perceber que uma planta é diferente da outra. Deve aprender a ouvir o som dos passarinhos ao seu redor e não apenas a diferenciar motores de carros ou o barulho que faz o celular quando determinada pessoa liga. Ver as cores de uma flor ao vivo é muito mais bonito do que ver a mesma flor em uma foto.
É esse contato que eu vejo perder-se nessa nova geração. Claro que existem pessoas que agem de forma diferente. Já citei o exemplo do blog da Lorena (http://lorena-salvaroplanetaterra.blogspot.com/) num outro post (Minha filha quer salvar o Mundo!!! http://www.umamaedasarabias.com/2011/12/23/minha-filha-quer-salvar-o-mundo/). E posso citar também uma cena que vi no parque, durante aquele dia ensolarado.
Uma jovem mãe corria e rolava na grama com seus dois pequenos filhos. Eles deveriam ter uns 4 ou 5 anos, no máximo. Confesso que primeiro a mãe chamou-me a atenção pela beleza (fazer o que? O melhor é admitir…rs). Mas depois reparei que ela parava em cada árvore e nas que tinha o nome falava pros filhos, mostrava as folhas, eles pegavam no tronco e riam em voz alta.
Voltei pra clicar e fui fazer umas fotos. Parei no lago onde existem nenúfares, frangos d’água e um biguá enorme se exibindo pra quem quisesse ver. Ali da margem preparei a câmera paro clique. De repente alguém me puxa pela camiseta. Era uma das crianças. Foi perguntar se eu sabia o nome daquele bicho grande no meio do lago. Assim que eu entendi o que tinha acontecido, o bicho bateu asas e sumiu da minha vista. Dessa vez não pude clicá-lo, paciência.
A mãe das crianças veio em minha direção, pediu desculpas por ter me atrapalhado. Mas acontece. No final, ganhei dois sanduíches da cesta de piquenique (estavam saborosos) e dei uma pequena aula sobre aves para os 3. Peguei minha câmera e voltei pra casa. Pensando em como momentos como esse devem fazer diferença na vida de uma criança. Afinal, eu lembro até hoje de um passeio que fiz com meu pai ao zoológico. Lembro do que vi, do que ouvi e do que falei naquele dia, mesmo tendo passado mais de 30 anos do passeio.
Falo isso porque acredito que uma diversão boa pra vocês e seus filhos é curtir a natureza próxima, pode ser o seu jardim, os parques da cidade ou em alguma viagem. Mostre para ele os pequenos detalhes da natureza, deixe ele descobrir as coisas. E se não souber responder, sempre alguém próximo vai saber, qualquer coisa, me perguntem por aqui. Se for possível, eu tento responder.
















Amei o texto.
Realmente, viver numa cidade grande não dá às crianças alguns privilégios, como conviver mais com a natureza e com animais…
Marisa, isso é verdade, mas o pior é que com a falta de tempo, muitas vezes a gente não consegue se dar conta de uma variedade enorme de seres que existe mesmo nas grandes cidades.
Aproveite as ferias e leve seu filho ao parque,tenho certeza que será um dia inesquecível! Texto lindo do Alex Martins: http://t.co/yU8XEoxI
Adorei o texto!!
Como me faz falta ouvir essas reflexões! Adorei